INTERNACIONALNOTÍCIAS

Imposto sobre bilionários na Califórnia gera fuga de capital

A proposta de taxação de 5% sobre grandes fortunas divide o Vale do Silício e tensiona o Partido Democrata em ano decisivo.

Uma movimentação financeira sem precedentes atinge o estado da Califórnia neste início de 2026. A proposta de criação de um novo imposto sobre bilionários, que prevê uma alíquota de 5% sobre patrimônios superiores a US$ 1 bilhão, disparou um alerta vermelho no Vale do Silício. O projeto, embora ainda dependa de uma consulta popular, já provoca um êxodo antecipado de grandes nomes da tecnologia para estados com cargas tributárias mais flexíveis, como Texas e Flórida.


A medida é uma resposta articulada por sindicatos e especialistas para suprir um vácuo orçamentário na saúde pública, estimado em US$ 100 bilhões para os próximos cinco anos. No entanto, a retroatividade da proposta — que visa alcançar residentes estabelecidos no estado desde o primeiro dia de 2026 — acelerou a saída de investidores ainda nos últimos dias do ano passado.

A elite tecnológica não demorou a reagir. Nomes como David Sacks e Peter Thiel já oficializaram a abertura de escritórios em Austin e Miami, respectivamente. O argumento central dos críticos é que a taxação incide sobre ativos e participações acionárias, e não necessariamente sobre liquidez ou renda anual. Isso obrigaria fundadores a venderem grandes blocos de ações de suas próprias empresas para quitar o tributo, o que poderia desestabilizar o valor de mercado de gigantes de tecnologia.


Por outro lado, defensores da proposta, como o professor Brian Galle, da UC Berkeley, minimizam a narrativa do “êxodo em massa”. Segundo o especialista, o histórico de taxações anteriores na Califórnia mostra que a infraestrutura e o ecossistema de inovação do estado costumam reter os talentos, apesar das pressões fiscais. Para ele, o imposto sobre bilionários é uma ferramenta necessária para equilibrar as contas após cortes federais severos.

O debate não se restringe à economia; ele expõe uma profunda divisão ideológica dentro do Partido Democrata. De um lado, a ala progressista, apoiada por figuras como Bernie Sanders e Ro Khanna, defende a justiça social e o investimento em serviços básicos. Do outro, o governador Gavin Newsom posiciona-se de forma contrária à medida.
Newsom, que possui pretensões políticas em nível nacional, teme que a imagem da Califórnia como “berço da inovação” seja prejudicada. O governador argumenta que a mera discussão do projeto já causou perdas de arrecadação, uma vez que bilionários que deixam o estado levam consigo outros impostos que já eram pagos regularmente.

Como funcionará a taxação na prática?
Se aprovado nas urnas em novembro, o imposto apresentará as seguintes características:
• Alíquota: Progressiva até 1% ao ano, totalizando 5% em um período de cinco anos.
• Público-alvo: Residentes com patrimônio líquido superior a US$ 1,1 bilhão.
• Destinação: 90% da receita será vinculada obrigatoriamente ao sistema de saúde estadual.
• Frequência: Trata-se de uma cobrança única (taxa extraordinária), e não de um imposto anual recorrente.

Para que a proposta chegue às cédulas de votação, os organizadores precisam coletar cerca de 875 mil assinaturas válidas. Caso avance e seja aprovada pela população, a batalha deve se deslocar para os tribunais. Especialistas jurídicos preveem uma enxurrada de processos questionando a constitucionalidade da cobrança retroativa e a competência estadual para tributar ativos intangíveis.

Enquanto a decisão final não chega, o mercado observa atentamente se outros estados seguirão o exemplo da Califórnia ou se aproveitarão a oportunidade para atrair ainda mais capital dos descontentes do Vale do Silício.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Botão Voltar ao topo