Lula intensifica agenda com a Ásia diante de pressões comerciais de Trump

Com visitas à Índia e Coreia do Sul confirmadas para o primeiro trimestre, presidente busca blindar economia brasileira contra tarifas americanas e crise no multilateralismo.

Lula acompanhado do Primeiro-Ministro da Índia, Narendra Modi.


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia 2026 com uma contraofensiva diplomática voltada ao Oriente. Em resposta direta às recentes tarifas e medidas protecionistas da administração de Donald Trump, o Planalto confirmou missões estratégicas à Índia (fevereiro) e à Coreia do Sul (março/abril). A estratégia visa não apenas diversificar parceiros comerciais, mas consolidar o Brasil como um líder do Sul Global capaz de transitar entre polos de poder em meio ao enfraquecimento das instituições internacionais.


A movimentação diplomática ocorre em um momento de alta tensão. Enquanto Washington reforça o discurso “America First”, o governo brasileiro foca na “autonomia estratégica”. Na Coreia do Sul, o foco será a ampliação de acordos de defesa (mísseis e drones) e cooperação em semicondutores. Já na Índia, Lula busca corrigir o baixo volume de comércio bilateral, que o presidente classificou recentemente como “insignificante” diante do tamanho das duas economias.


O professor de Relações Internacionais da FGV, Oliver Stuenkel, aponta que vivemos a “pior crise do multilateralismo em décadas”. Segundo ele, a lógica da força militar e econômica tem substituído o diálogo institucional, o que obriga o Brasil a buscar alternativas sólidas fora do eixo Washington-Bruxelas para evitar ficar isolado em disputas de grandes potências.


Larissa Wachholz, especialista do Cebri, destaca que o Brasil está aproveitando uma “janela de transição”. Com o mundo caminhando para uma multipolaridade ainda não estabilizada, temas como minerais críticos e transição energética dão ao Brasil um poder de barganha inédito frente a Pequim e Seul.


Recentemente, em 22 de janeiro de 2026, Lula conversou por telefone com o presidente chinês Xi Jinping. No diálogo, ambos reforçaram a necessidade de fortalecer a ONU e criticaram medidas de “coerção e medo”, uma referência velada às recentes intervenções e sanções americanas na região, especialmente após os eventos de instabilidade na Venezuela.


A virada do Brasil para a Ásia em 2026 não é apenas comercial, é uma sobrevivência geopolítica. Ao estreitar laços com potências tecnológicas e demográficas do Oriente, o país tenta garantir que sua economia não seja refém das flutuações políticas de uma Casa Branca cada vez mais imprevisível.

Sair da versão mobile