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INTERNACIONAL

Trabalhadores estrangeiros denunciam condições desumanas na cidade do futuro no Senegal

Quando Mohamed começou a trabalhar nas obras da nova sede das Nações Unidas para a África Ocidental no Senegal, ele se orgulhava de dizer que estava trabalhando “não apenas para a África, mas para o mundo”.

Este encanador serra-leonês de 25 anos mudou-se para Diamniadio, a cerca de 40 quilômetros de Dacar, atraído pela perspectiva de trabalhar na construção de um dos maiores projetos de desenvolvimento urbano da África Ocidental.

Com seus ministérios, sedes de organizações e empresas internacionais e suas instalações esportivas, a nova cidade de Diamniadio, projetada para aliviar a pressão sobre a capital, é a vitrine do plano do presidente Macky Sall para promover a decolagem econômica de seu país.

Nove meses atrás, os sonhos de Mohamed foram destruídos quando o ar-condicionado que ele estava instalando caiu, cortando seu dedo e parte do polegar. Ele afirma que foi demitido sem indenização. Desde então, mais do que viver, sobrevive com pequenos trabalhos.

A AFP conversou com mais de dez migrantes de Serra Leoa, Guiné e Nigéria que trabalharam em Diamniadio.

As histórias que contam são as de uma vida de miséria, com jornadas de trabalho intermináveis por um salário mínimo, pernoites em casas coletivas decrépitas e com o medo de se machucar o tempo todo.

A AFP mudou seus nomes para mantê-los anônimos.

“Eles nos disseram que nosso salário era o preço de nossas almas. Em uma palavra: escravidão”, conta Alpha, um montador de aço guineense.

No Senegal, a precariedade é generalizada. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 9 em cada 10 trabalhadores têm emprego informal.

– “Condições desumanas” –

O novo escritório da ONU no Senegal é uma estrutura espetacular de 60.000 metros quadrados. Com um grande complexo esportivo, o Dakar Diamniadio Sports City é uma das construções estrela da nova cidade.

Embora o código do trabalho senegalês estabeleça que todos os trabalhadores têm direito a um dia de descanso por semana, os empregados afirmam que às vezes trabalham até 13 horas por dia, sete dias por semana, e que o que recebem equivale a para cerca de 7 dólares por dia, ou menos.

“Obviamente, são condições desumanas”, diz Seydi Gassama, chefe da Anistia Internacional no Senegal. “Todos os trabalhadores devem poder trabalhar e ter dias de folga, sejam eles senegaleses ou estrangeiros”.

Todos os trabalhadores entrevistados pela AFP falou afirmaram não ter assinado nenhum contrato.

Bakary, outro serra-leonês, sofreu um ferimento na cabeça e disse que foi mandado para casa sem remuneração. Segundo conta, os seus superiores não o levaram ao médico e não lhe deram escolha: ou voltava ao trabalho no dia seguinte ou perdia o emprego.

“Eles são muito maus, gritam e insultam os trabalhadores. Mesmo que você esteja exausto, eles te obrigam a trabalhar”, comenta Alpha.

Alguns contam que foram até espancados.

“Todos os dias eles gritam, gritam, batem em você, maltratam você”, explica Ibrahim, um trabalhador de 26 anos. Se algum funcionário bater de volta em seu chefe, ele será demitido. “Então, quando [o chefe] te bate, você tem […] que aguentar e voltar ao trabalho”.

Os trabalhadores estrangeiros dizem que enviam até metade de sua renda de volta para suas famílias.

Mohamed, o encanador, gostaria de fazer uma denúncia na polícia. No entanto, como estrangeiro anglófono e sem quaisquer documentos que comprovem o acidente que sofreu, teme que isso só piore a sua situação e que não volte a encontrar emprego.

– Legislação trabalhista –

Segundo He Shenjian, diretor-geral da WIETC para a África Ocidental, empresa chinesa responsável pela construção da sede da ONU e do complexo esportivo, todos os trabalhadores foram declarados à segurança social. Além disso, em caso de acidente, eles têm cobertura médica e são remunerados até a recuperação, disse.

Segundo explicou à AFP, o trabalho noturno e aos finais de semana é “excepcional” e só é feito voluntariamente.

Por sua vez, Madani Tall, responsável pelas duas obras, destacou que os trabalhadores são diaristas, condição para a qual “a lei senegalesa não exige contrato”. No entanto, todos os trabalhadores com quem a AFP falou afirmaram que recebem o salário mensalmente.

Madani Tall e He Shenjian confirmaram que duas pessoas morreram nas obras da sede da ONU, uma de ataque epiléptico e a outra de um acidente.

O coordenador residente das Nações Unidas para o Senegal não respondeu às perguntas da AFP e as autoridades governamentais encarregadas de Diamniadio afirmaram que o assunto não é de sua competência.

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